sexta-feira, 25 de março de 2011

PINOT NOIR

Pinot Noir

eu tive em minhas mãos um corpo
e sua pele era doce com uma Pinot Noir
branca como a mais linda manhã de outono
que em minhas mãos rubravam
e aquele corpo era de uma inocência científica
não havia pudor em meus olhos
apenas um desejo
uma inquietação
um mendigo que deseja o pão.

mas me contive perante tão fragilidade
tanta porcelana junta eu podia enlouquecer
e com uma precisão cirúrgica
percorri aquela via-sacra
eu salivava
mas não tirava os olhos daquela boca
e desejei cada centímetro
cada milímetro
cada gota de suor.

e foi algo tão puro tão decente
tão limpo
como se um milhão de borboletas colorissem o inferno
e o que se ouvia era o som da chuva batendo na janela
era a pintura mais bela
depois da chuva
o silêncio
e a respiração desajustada
a insipidez de dois corpos desnudos
duas almas vagabundas
desnorteadas
implorando perdão.

salivando o Velouté carnal
sobre as cobertas lavadas com o suor
não havia mais inocência
nem religião
menos ciência
haviam apenas dois corpos que se desejavam infinitamente
com o intuito de se consumirem até o fim dos tempos.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

DONAZICA

DonaZica

Bem, como não escrevo nada há tampos, vou lhes convidar a saberem o que ando ouvindo, bom essa banda aqui de umas moças lindas e simpáticas tocam um som diferente, mas ao mesmo tempo familiar a qualquer ouvido atento, acho engraçado alguns rótulos que deram à elas algo tipo Psico-samba, mas é samba mesmo na sua forma mais doce e pura como só o samba pode ser. Atenção para as criativas letras da banda (prestem atenção nas citações de alguns trechos da música Piano, Chico Buarque na véia) ein...

Piano (ofídico fatídico)

Lá em cima do piano um líquido satânico
preparado há muito tempo por um tal botânico
deste lado destilado do outro lado fermentado
com açúcar com afeto gota a gota decantado
lá em cima do piano ou naquele bar
tem um copo de veneno que é de amargar
tem um pouco do veneno pior que arsênico
lá em cima do piano tinha um copo de veneno
quem acho bebeu não compreendeu
que a doçura que aparenta é só mais uma ferramenta
lá na casa do chapéu por detrás do breu
mora um senhor titânico neurônio irônico
substrato abstraído de sorriso corroído
pai do roedor de dor traidor traído
lá no fundo do seu crânio debaixo dos panos
um suco libidinoso ácido queimando
revelando das entranhas o que parecia estranho
lá em cima do piano tinha um copo de veneno
quem bebeu morreu o azar foi teu
que foi no bico do corvo até a curva do osso
lá na vila do caroço no fundo do poço
tem um copo de veneno dry-martírio pleno
bolinando as turbinas quando o sangue estricnina
na corrente anfetamina você liga e não atina
sobe a rampa do veneno e pula em cima do piano
deixa pra fulano reparar os danos
mas embebida nos enganos no meio dos meios termos
a desiludida vida tem valor supremo
quem viver verá quem beber esquecerá
que mesmo um copo vazio ainda está cheio de ar.

Aqui no blog do Penca tem os dois discos pra baixar

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Seychelles

Seychelles

Puta banda paulistana, que ando escutando muito, graças à Laka que me apresentou os caras, muito bom, seu último disco Nananenem é fantástisco de uma excelente produção e músicas fantásticamente incríveis, um deleite aos ouvidos principalmente pelas letras aqui duas das minhas preferidas do último disco, amor à primeira vista (audição)... 




Ansiedade e obsessão

Foi encontrado caído na madrugada
As veias latejavam, os olhos diabólicos
Disposto a desferir toda a diáspora do desamor
Ele seguiu e se desmantelou sozinho
(bang! bang!)

Era certamente uma boa índole
Mas os descaminhos da vida conduziram-na ao fundo do poço
Queria ser a virtude em pessoa mas acabou sem coração
Robocop no love, ansiedade e obsessão

Essa rotina viciosa
Cobra um preço
Leva sua alma pro inferno
(ansiedade e obsessão)

Finalmente ergueu-se de toda dor
Foi amparado na casa da luz vermelha
Pegou o bonde do desespero até o fim da linha
Abraçou o capeta e sentiu-se em casa
Totalmente familiarizada com a podridão
Mike Tyson in a love story, ansiedade e obsessão

Essa rotina viciosa
Cobra um preço
Leva sua alma pro inferno
(ansiedade e obsessão)

 
E essa aqui é uma excelente crítica ou entendam como quiserem, poesia é poesia, sintam
 
A música perfeita
 
E se eu pudesse escrever a música perfeita
reta, direita
uma que não precisasse nem de letra.

E eu se ao invés de cantar eu latisse no escuro
E seu ao invés de tocar só fizesse barulho,
vou me vestir de palhaço pro próximo número.

Na verdade não faz muita diferença,
só um teste para sua inteligência.

A criança e sua brincadeira,
com revólver ou giz de cera
Lapiz de cor!

E se eu pudesse escrever o som do capeta?
Aquele que você rejeita...
Aquele que você gosta mas não aceita.

E se ao invés da blasfêmia eu louvasse a Deus?
Um canto fulmegante e feliz que diz 'Adeus'?
O meu pedaço no céu, já pedi a rapel
E se eu fosse pop, e ficasse em cima do muro?
E se eu fosse bobs de cabelo duro?
E se eu fosse porte, batesse com a cara contra o muro, numa grande porrada?

Na verdade não faz muita diferença,
só um teste para sua inteligência.

A criança e sua brincadeira,
com revólver ou giz de cera
Faber Castell!

E seu ao invés de escrever, eu parasse de fazer?
E se ao invés de fazer eu parasse pra escrever, só pra compôr uma música
que me desse um fio de prazer?

Na verdade não faz muita diferença,
só um teste para sua inteligência.

A criança e sua brincadeira,
com revólver ou giz de cera.
 
Aqui link para baixar os discos deles basta clicar nas capinhas...
Braços

A ESTRELA

Como alguns de você podem notar eis aqui uma tentativa frustrada minha de percorrer outros ramos da escrita, mas bem, aqui está, de cara limpa pra quem quiser...

A Estrela

Ela me pediu uma coisa
Mas isso eu não posso dar
Ela pediu uma estrela do céu
Aquela no alto a brilhar
Pensei em mil maneiras
De poder essa estrela buscar
Talvez se eu virar astronauta
Ou aprender a voar
Perguntei se não servia
Uma linda estrela do mar
Mas tem que ser a estrela que brilha
No céu a flutuar
Eu falei pra ela que não
Que problema eu ia arrumar
Eu não posso mexer nessa estrela
Se foi Deus que pôs ela lá
Mas ela insistiu mais ainda
E disse pr’um jeito eu dar
Refleti sobre a situação
E pensei se valia eu tentar
Pensei em usar uma escada
Mas nenhuma iria chegar
Nem tenho dormido a noite
Tentando essa estrela pegar
Oh estrela vê se brilha de dia
Pra noite eu poder descansar
Oh mulher complicada
Nada pode ver que tudo quer comprar
E se eu não lhe der essa estrela
Na minha cara ela nunca mais vai olhar
Homem apaixonado é uma desgraça
Deixa a mulher deitar e rolar
Então pensei mais uma vez
Se valia eu me apaixonar
Até que ela não é lá essas Coca-cola
Mas é um guaraná
Até dá pra passar uma chuva
Já não sei quanto a casar
Eita! Mulher exigente
Imagina se com ela eu morar
Todo dia ela querendo uma coisa
E olha a briga se eu não puder dar
Pensando melhor, não
Melhor eu nem tentar
Se ela quiser uma estrela
Ela mesma que vá buscar.

PRELIMINÈIRES

Um dos meus poemas favoritos, escrito à um certo tempo, para uma certa pessoa que não liga muito, talvez por conta da sua memória de peixe...

Preliminèires

ela valoriza os olhares
os abraços e as palavras
os beijos os novos ares
e as mãos sem direção.

são lábios que beijam
que imploram e desejam
um corpo que ajoelha
e pede perdão.

se assim tu celebrares
com vinho e poesia
e gestos peculiares
luxúria e devoção.

percorrendo as preliminares
meus olhos perseguem teu corpo
em versos subliminares
duas fadas no furacão.

minhas mãos puxam teus cabelos
e beijos que arrepiam os pelos
se te xingo não minto
se minha qualquer coisa.

também sou teu
sou teu ateu no paraíso
o que queres que eu seja
o que queres que eu diga
não digas nada, fique calada.


sábado, 1 de janeiro de 2011

OS VELHOS OLHOS VERMELHOS

Os velhos olhos vermelhos

Verdes olhos meus, verdes como sou
Verdes como serei só
Se nunca mais for teu
Um par de pernas maravilhosas
Um par de olhos flamejantes
Dois olhos vermelhos
Me afogam em lágrimas
Me bebem como colírio
Me comem por sobre as mesas
Me olham por sobre os ombros
Me tiram o fôlego
E me sacia a fome de muitas eras
O olhar mudo das mil palavras
Vulgares olhos vis
Viste como meus olhos verdes te olham
Meus olhos te despem
Te devoram
Depois se despedem
E nos olhares nos beijamos
Nos comemos
Traímos
E somos traídos como dois idiotas
Pelos olhos de tortura
Sanguinários olhos assassinos
Que malditos sejam
Pois sei entende-los
Sei o que dizem
Sei o que querem
Como querem
Onde querem
Olhos que me chupam
Me mordem
E em meu corpo deixa marcas
As marcas que durarão 365 dias.


sábado, 25 de dezembro de 2010

DIA D

Dia D

Desliguei as lâmpadas do quarto e divaguei sobre dons divinos
Descansei sobre a dádiva do infinito e sonhei com fadas e duendes
Destruí a cela que me aprisionava dentro de outra dimensão
Devagar dei passos rasos dentro dos jardins do coração.
Disse a todos da sensação de estar do lado certo da ocasião
Deus me diga se seria eu merecedor de tal doença
Deveria eu, querer pra sempre a dor alegre da doação?
Dissertei com diplomacia a democratização destas palavras
Desci fundo no dever de agora ser, dois
Diga a mim que o mal deixará pra depois
De agora em diante dividiremos o dom de ser só um
De devolver a liberdade roubada das flores depois do meio-dia
De dormir pensando em acordar do teu lado, Diana
Deus, eu nem sairia da cama.

És como a flor, a diferença é que podes levar teu perfume a todo lugar.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

CLUBE NIILISTA

Clube Niilista

Ando chorando para cenas românticas em filmes de ação
Vou morrer operário, nunca serei patrão
Meu filme favorito ainda é O Poderoso Chefão
Ó meu Deus por favor não.

Um dia eu me mato
Meu disco favorito é o 17 Big Golden Hits Super Quentes Mais Vendidos do Momento
Do Língua de Trapo.

A única vez que venci na vida foi no fliperama
Ainda acho que a melhor coisa da vida é dormir nu na cama
Será que há algo errado comigo?
Só ouço musicas do tempo em que eu ainda nem era nascido.

Tentei até ser comunista quando adolescente
Fui preso muitas vezes jurando ser inocente
Peguei porrada de muito policial
Desisti, eu caí na real.

Juro que tentei ser escritor
E vender livros no exterior
Mais sou frustrado com essas coisas complicadas
E ser poeta não me levará a nada.

Achei que podia ser Chico Buarque
E te convencer a comer açaí com charque
Mas você sempre foi muito egoísta
E me deixava sempre parado na pista.

Queria morrer como Charles Bukowski
Mas descobri que tenho medo de morrer
Não me julgue um desesperado
Só não quero saber o que tem do outro lado.

Peguei minha mulher com o seu novo amante
Mas ele era filho do meu atual patrão
E o convidei para tomar uma cerveja
Rindo de mim ele me disse não.

Resolvi então virar evangélico
Quem sabe assim mudava a situação
Mas acabei tendo que lavar os banheiros
Para poder garantir minha salvação.

Eu sempre fui como Caetano
E sempre achei tudo muito lindo
Mas sempre acabo entrando pelo cano
Desnorteado, sem saber onde estou indo.

Rezava toda noite para o cigarro não acabar as três da manhã
Para o bar não fechar antes de amanhecer
Mas você sempre saia dizendo não me querer mais
Então voltava pra casa e tentava dormir em paz.

Me incentivando eles diziam: Vai dar tudo errado no final
Ainda é tempo meu amigo, desista
Volte agora mesmo para o Clube Niilista
Onde é o Clube Niilista?


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

TITÃ

Titã

Eu posso ir contra a vontade do teu olhar
No amanhecer de uma guerra, a insônica
Acender a pira funerária e por Roma em chamas
Assim por fim na tenra lenda babilônica.

Devastou cidades com teus códigos mefistofélicos
Tuas meias-luas, meias-palavras, meias-verdades
Metade do teu poder infinito de me por em ruínas
De por em ruínas teu povo e tuas próprias cidades.

Proeminente febril numa tempestade de vestido
Decimais andares de terror e beleza
Vis cantares em exaltação de outros amores
Fétidos, rastejam companheiros da nossa proeza.

Paliativos teus gestos me condenam ao sofrer
Honoráveis gestos que matam e toma para si as atenções
Gritos absurdos me atordoam e me parto em porcelana
O “cale-se” latente em ecos e aliterações.

Consagram-se malditos os condenados discordantes
Cantam as valsas sem sentido pelos poetas
Costura a boca da voz de Deus e do povo
Desgovernada anunciada pelos patéticos profetas.

Nesta parábola falam-me somente do teu eu inacessível
Do espírito dos imperadores tiranos que tens
Passas de outra para outra a transmutação
De estrela morena a ravena maldita que nos isenta de bens.

Levas teu vulto a aqueles que a querem, maledicência
A mortalha por noites será nosso talismã
Amo-te sim porem, sou deveras humano
Sou um nada perante teu inestimável titã.

E assim dos dias se fizeram noites longas e frias por toda terra.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

FODA-ME

Foda-me

Ao te arrepiares novamente lembrarás da minha língua circundando em tua vulva
Circulando tuas ancas e falando as profanidades e estamos sós no mundo
E beija com a boca que pragueja de uma dor bem quista
E chegas lá e gritas como se comemorasse sobre inimigos uma conquista.

E viras sem que eu precise dizer uma só palavra de ordem
E amada vadia implora uma punição maior assumindo mil crimes
E te violento por dentro como se não existissem pra mim limites
E pisas na glória celestial quando te ajoelhas sobre a mancha dos vimes.

E vou arrancando de ti a fome pelo desejo ainda insípido
Pelo lado de fora explode o sabor da coragem de pedir mais
Escravos do vício ilícito de ser usado por uma cruel bailarina
O místico se mistura a fuga da decência inocente de menina.

E vasculho um tesouro no teu corpo como que se criativo procuro mais meatos?
E ranges a fúria de mil demônios expelindo da catedral aos beatos?
E respiras vapores no meu rosto e olhas com o desprezo de depois te abandonares
E só diz me amares se de cadela eu te chamares.

E eu te amo como um cão faminto num cio furioso
Como o assassino que te escolheu para assim ser teu carrasco
Como o gigolô que ao te desprezares não vive sem você
Como metade da rua inteira te deseja como escravos do teu querer.

Mil homens te desejam ao te quererem e a sonharem contigo
Mil poetas sucumbem à morte por deixá-los sem palavras
Mas só eu percorro a via-sacra como se em ti buscasse abrigo
E só a mim concedes o viático dos enfermos que somente a ti é permitido lavrar.
Je t’ame, baise moi.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A BELA E A FERA

Só uma do Chico pra não peder o costume, tão gostosa de cantar, principalmente a versão do Ao Vivo Carioca

A Bela e a Fera

Edu Lobo - Chico Buarque
1982

Ouve a declaração, oh bela
De um sonhador titã
Um que dá nó em paralela
E almoça rolimã
O homem mais forte do planeta
Tórax de Superman
Tórax de Superman
E coração de poeta

Não brilharia a estrela, oh bela
Sem noite por detrás
Tua beleza de gazela
Sob o meu corpo é mais
Uma centelha num graveto
Queima canaviais
Queima canaviais
Quase que eu fiz um soneto

Mais que na lua ou no cometa
Ou na constelação
O sangue impresso na gazeta
Tem mais inspiração
No bucho do analfabeto
Letras de macarrão
Letras de macarrão
Fazem poema concreto

Oh bela, gera a primavera
Aciona o teu condão
Oh bela, faz da besta fera
Um príncipe cristão
Recebe o teu poeta, oh bela
Abre teu coração
Abre teu coração
Ou eu arrombo a janela
Samba pra Yasmin

Vou para o meio da rua só com o meu trompete e um saco de confete
Sozinho fazer meu carnaval
Todo vagabundo, malandro, pivete, pode vir no meu arraial
Pode imaginar o que quiser
Posso ser Mestre-sala se você for minha Porta-bandeira
Minha mulher, minha menina
Eu Pierrô, tu Arlequina
Da minha ou da tua maneira
Todo louco, bandido, amante, todo santo na estante
Todo vigia no portão
Todo meu samba batucado em forma de canção
Todo o meu samba é pra você
E você é o samba
Que faz pulsar meu coração
Toda Pietá, Iracema, Morena de angola com chocalho e canela
Desperta o sono da sentinela
Eu debaixo da tua janela
Cantando poemas de amor.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

NOSSO APARTAMENTO

Nosso apartamento

Tantos lençóis manchados pelas lágrimas de quando estou só
Meu corpo ainda sente tuas mãos tua voz hoje vaga no quarto vazio
Cada canção lembra e machuca me arrepia a nuca te lembrar assim
Ainda está em mim, tudo teu está em mim.

Tantos lugares vagos em nossa mesa, come comigo na mesa a tristeza
Tua risada hoje vaga por sem fins corredores e me faz rir também
Cada foto tua na moldura crua, parece que foi ontem, parece que ainda está aqui
Parece que ainda te vejo sorrir.

Mas vou me deitar com tantos outros na cama fria que foi nossa um dia
Tentando por um outro alguém no teu lugar
Mas sei que será em vão, pois meu corpo só treme na tua mão
Me resta o choro e solidão.

E pela nossa janela toda tarde agora é alegre, cheia de tantos sorrisos e sons
E sempre que chove, eu lembro quando chovia e tu não podia ir embora
Tardes em que faz calor, meu coração se enche de neve
Se tu fores embora agora, me leve.

Me leve embora deste apartamento, disso que me aparta do teu coração
Disso que me separa dos teus braços, disso que me sufoca em tensos laços
Eu prefiro morrer, eu quero me jogar no teu colo e dormir
E sonhar que ainda está aqui.


EU TE AMEI

Eu te amei

Deixe-me ver, deixe-me ser tu e eu serei só teu, pra sempre
Tua criatura, o espelho de tua glória, agora, minha, tua verdade
Quando o sol se lança por sobre teu formoso céu, teu véu
Meu coração, pé no chão, escarnece de felicidade.

O nome do teu nome, santa, madre, hei de matar, hei de morrer
Hei de viver atento a todos os teus detalhes, teu desenho perfeito
Teu compasso, teu passo, eu passo na tua rua todo dia
Só pra te ver, pra tentar te convencer, de que meus olhos sorriem ao te ver.

Eu quero me ver perto do teu rosto, meu reflexo em teus olhos
Teus dois olhos negros de jabuticaba, são flores negras
Tuas mãos nas minhas, minhas roupas sobre as tuas
Duas almas brancas e sorrisos vadios.

Então me chama, tu é chama, me aquece, nunca me esqueça ou me deixe te esquecer
Nunca me deixe conhecer a saudade que existe em mim em tom maior
Pois quando tu somes, eu esqueço até meu nome, eu choro durante o verão
Tudo hoje em mim fica pra amanhã, tudo hoje em mim fica a tristeza no divã.

Mas se por acaso não puderes, não me esqueça de repente, o nosso juramento
De por outro em meu lugar, me deixe aos poucos, pois são poucos os que poderão amar
Como eu amei, como eu amei, só eu sei, só tu sabes o quanto eu te amei
E eu amei, de verdade eu amei, por deus eu te amei.


sábado, 6 de novembro de 2010

LIES

Lies

Throw the liars in the fire
To see the lies fade slowly
Baptize the sinners on the water
To see if clothes became clean.

Let your blinds walks in the shine day
To know if they really want see
Let your murders in the darkness
To know if they fell the same fear.

Drain some flowers to get some perfume
Dream some dreams to know some faces
Drive some car to come back home
Because the true never comes.

Give to me another chance to believe
Give to me another chance to lie
Give to me another chance to decrease
Give to me another chance to die. So high.

Let you heath in the deep ocean
To suffocate your old truth
So consider my words nothing
Nothing floats on the vacuum.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

DOIS NA FOTOGRAFIA

Dois na fotografia

Ele a fotografava
Ela posava
E sorria
E lhe olhava com um par de olhos pretos
Olhos negros e grandes
Como uma mulher
Ela ficava toda pose
Mandava beijos
E provocava
Mas depois como menina
Se escondia por trás da cortina
Envergonhada
Ela dizia
Ele calava
Depois arrancava a câmera das suas mãos
E o jogava na cama
Como no cinema
Ela falava com diplomacia
E o que ele dizia
Era um poema
Ele calava entre as pernas dela
Ela gritava
Ela gemia
Às vezes perecia que chorava
Mas logo dizia
Palavras de ordem
Gestos de amor
Gritava de alegria
Gritava de dor
E longa aquela noite
Naquele corpo sem fim
Até os dois sumirem silenciosos
Por entre a fumaça dos cigarros
Por entre as buzinas dos carros
Por entre os blues e os destilados.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

DEUS ESTÁ MORTO

Deus está morto

O amor é paciente por isso espera em silêncio
O amor é um paciente do Hospital das Clínicas
O amor repousa gritante na ala da loucura
O amor é um câncer e não tem cura.

Deus é amor, o amor é cego, Deus é um cego apaixonado
Deus é um cego pedindo esmolas na rodoviária
Deus é uma criação do homem, o homem do acaso
Deus é um milagre da ciência, o homem não tem muito o que fazer.

O homem destrói tudo o que ele não pode entender
O homem criou a justiça para se culpar
O homem é uma injustiça consigo mesmo
O homem é um Tiranossauro Rex com PhD.

Deus é um escultor apaixonado e eternamente arrependido

O CARA

O cara

Minha cara,
Não aponte o dedo
Na minha cara
Como se aponta
O dedo na cara
Do culpado
Como se aponta
O revolver
Na cara do refém.

Minha cara
Eu estou lhe dando
Minha cara à tapa
Pois senão
Eu fico com cara de tacho
Depois que passa
A procissão
Eu fico com a cara
No chão
Com cara
De cachorro pidão.

Minha cara
Quando eu passo
Todos dizem
Lá vai o cara
Que é só mais um
Só mais um cara
O cara da foto
Um cara normal.

Mas se me disseram
Que tudo o que eu quiser
O cara lá de cima vai me dar
Mas para o que quero
Tenho pressa
Não tem preço
É muito caro
Eu quero amor
Pra recomeçar
Como o Frejat
Como o Cazuza
Eu quero ser o teu cara
Minha cara.

TEMPO AO TEMPO

Tempo ao tempo

Vivemos em função do tempo
Corremos contra o tempo
O tempo é o dinheiro no fim do mês
Todo mundo perde dinheiro, perde tempo.

Eu preciso de tempo, pois
Não tenho tempo a perder
Se você tiver tempo
Eu quero comprar, você quer vender.

O tempo vive me passando a mão
Me comendo sem vaselina
O tempo, tampa de panela de pressão
O tempo nunca me deixa ficar por cima.

O tempo não tem tempo
Por isso é preciso dar tempo ao tempo
De quanto tempo eu preciso,
Para te ter todo tempo?

E quando o tempo acaba?
O que você faz quando sobra tempo?
Você tem tempo pra mim?
Eu quero ter tempo pra te ter todo o tempo.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A HISTÓRIA DE UM CORAÇÃO SOLITÁRIO E VAGABUNDO

A história de um coração solitário e vagabundo

Quando eu dei por mim ele já estava lá repousando como uma criança
Não questionei, não reclamei, apenas deixei que ficasse
E ele ficou, sereno e sonolento batendo ritmado e tranquilo
Se hospedou naquele lugar apertado e escuro de meu peito
E meu peito era como um claustrofóbico quarto de empregada
E assim ele esteve em silêncio então não lhe cobrei nada.

Até que num belo dia o ouvi cantarolando e batendo em ritmo de samba
No inicio parecia algo normal, pois de samba eu também gostava
E era até bonito o jeito da sua suave e alegre melodia
Ele havia encontrado uma razão para suas pulsações, uma moça
Era uma bela moça com um belo coração de festa de aniversário
E assim ficaram todos os dias batendo compassados, dois corações livres.

Ele logo mostrou interesse e todos os dias acordava cedo, o coração-trabalhador
E o coração dela amanhecia na cama numa linda preguiça de sono feminino
E todos os dias eles sonhavam batendo felizes e satisfeitos quase que em sincronia
Ele aprendeu com ela, ela com ele, juntos somaram muitos aprendizados
E sempre que podia ela lhe dizia coisas fantásticas que só um coração de mulher pode entender
E ele ficava maravilhado com tantas coisas incríveis que juntos eles descobriam.

Mas o coração dela era um coração alado e sempre sonhava voos mais altos
Era um indomável coração de mulher como só um coração de mulher deve ser
Meu peito então se tornava pequeno demais perante as suas vontades cada vez maiores
E junto com o coração dela ele quis voar para além de todos os céus possíveis
E ele abandonou meu peito assim como chegou sem aviso prévio de nada
E voou, voou no sonho mais incrível e intenso de Ícaro, como o Pégaso indomável cavalgando entre nuvens.

Minha vida voltava ao normal, eu sem coração raciocinava melhor para as coisas
Eu conseguia enxergar melhor os obstáculos e transpassá-los
E levava minha vidinha miserável de homem solitário
Não sentia mais nada e nem desejava mais sentir
Pois os sentimentos me atrapalhavam as outras coisas que estão fora do coração
Apenas existia, pois sem coração só se pode existir.

Mas numa noite durante um sono profundo alguém me batia à porta
Ao abrir lá estava ele, triste, solitário e bêbado, um verdadeiro coração vagabundo
Ele entrou no meu peito e se acomodou deitando pesadamente e dormindo
E novamente não questionei, não fiz perguntas apenas aceitei normalmente
Ele dormiu durante alguns dias e parecia estar tudo em paz novamente
Ainda pensei em ir lá e lhe cobrar aluguel, lhe cobrar respostas, mas não o fiz.

Mas a calma em que ele estava durou somente durante seu profundo sono
Quando ele acordou já não era o mesmo, estava frio e com um ar maligno
Era o coração negro, o coração satânico, o coração tropical coberto de neve
Um coração de açougueiro e aquilo me assustou, de início e tive medo de questioná-lo
Mas como vi o mal ele fazia a si mesmo fui tentar uma conversa
E ele me recebeu de pedras nas mãos, de arma carregada, uma injúria à minha pessoa.

Lhe dei do próprio remédio e despejei nele álcool e cigarros e sexo
Cada noite com uma marca de cigarros nova, com uma bebida diferente, com uma mulher mais suja que a anterior.
Isso aconteceu por umas semanas e no começo ele resistiu, mostrou-se forte
Mas os dias iam se passando e aquela vida sem sentido ia lhe consumindo
Ia lhe torturando acordar todos os dias na sarjeta sujo e sem dinheiro
Foi quando ele veio até mim e decidiu falar.

E falou de como foi incrível sua jornada em busca do infinito ao lado daquela que foi sua
Mas que ela se encheu de tédio, que tudo o que ele lhe dava não mais a satisfazia
Que ela havia se fechado e jogado a chave fora e voou para mais longe
Ele vagou desolado perdido por longos dias e longas noites sem rumo
Tudo em sua vida não fazia mais sentido, tudo era incerto e sem nexo
Foi então que ele se descobriu sozinho pra sempre e resolveu voltar.

Reconhecendo seu erro de encegueirado eu o aceitei de volta
Desde que ele se portasse como no inicio e tentasse deixar a paz prevalecer entre nós dois
E assim foi novamente, não se ouvia mais nada naquele cubículo que é meu peito
A não ser um coração solitário batendo em silêncio
Estou feliz por a gente se entender apesar de ser assim sem comunicação
Mas é melhor que seja assim, pois não posso me dar ao luxo de assumir um coração louco como este meu, um coração de poeta.

Foi preciso contar essa história para poder explicar o porquê de você ter ouvido uma batida parecida como samba por esta manhã no meu peito
Aquela moça de coração indomável voltou e dizem que mudou
Que passou por tudo o que eu passei
Mas dessa vez se tiver de acontecer de novo eu vou estar preparado
Não cometo o mesmo erro duas vezes, não mais.